Os Trabalhadores
Rogaciano Leite
Uma língua de fumo, enorme, bamboleante,
Vai lambendo o infinito — espessa e fatigada…
É a fumaça que sai da chaminé bronzeada
E se condensa em nuvens pelo espaço adiante!

Dir-se-ia uma serpente de inflamada fronte
Que assomando ao covil, ameaçadora e turva,
E subindo… e subindo… assim, de curva em curva,
Fosse enrolar a cauda ao dorso do horizonte!

Mas, não! É a chaminé da fábrica do outeiro
— Esse enorme charuto que a amplidão bafora —
Que vai gerando monstros pelo céu afora,
Cobrindo de fumaça aquele bairro inteiro.

Ouve-se da bigorna o eco da oficina,
O soluço da safra e o grito do martelo…
Como tigres travando ameaçador duelo
As maquiagens estrugem no porão da usina!

É o antro onde do ferro o rebotalho impuro
Faz-se estrela brilhante à luz de áureo polvilho!
É o ventre do Trabalho onde se gera o filho
Que estende a fronte loura aos braços do Futuro!

Um dia, de uma idéia uma semente verte,
Resvala fecundante e, se agregando ao solo,
Levanta-se… floresce… e ei-la a suster no colo
Os frutos que não tinham — enquanto estava inerte!

Foi o germe da Luz, a flor do Pensamento
Multiplicando a ação da força pequenina:
— De um retalho de bronze ergueu uma oficina!
— De uma esteira de cal gerou um monumento!

Trabalhar! Que o Trabalho é o sacrifício santo,
Estaleiro do amor que as almas purifica!
Onde o pólen fecunda, o pão se multiplica
E em flores se transforma a lágrima do pranto!

Mas não vale o Trabalho andar a passo largo
Quando a estrada é forrada de injustiça e crimes…
Porque em vez de dar frutos dúlcidos, sublimes,
Gera bagos mortais e de sabor amargo!

Ide ver quanto herói, quanto guindaste humano
Sob a poeira exaustiva e o calor fatigante,
Os músculos de ferro, o porte do gigante,
Misturando em suor o seu pão quotidiano!

Sua força é o milagre! A redenção bendita!
O seu rígido braço é a enérgica alavanca,
O escopro milagroso, a chave que destranca
O Reino do Progresso onde a Grandeza habita!

Sem os pés desse herói a Evolução não anda!
Sem as mãos desse bravo uma Nação não cresce!
A Indústria não produz! O Campo não floresce!
O Comércio definha! A exportação debanda!...

No entanto, vêde bem! Esses heróis sem nome,
Malditos animais que inda escraviza o ouro,
Arrastam — que injustiça! — o carro do Tesouro,
Atrelados à dor, à enfermidade e à fome!

Quanto prédio imponente e de valor suntuário
Erguido para o céu, firmado no infinito,
Indiferente à dor, indiferente ao grito
De desgraça que invade a choça do operário!

De dia, é no labor! Exposto ao sol e à chuva!
De noite, na infecção de uma choupana escura
Onde breve uma filha há de tornar-se impura
E u’a mulher faminta há de ficar viúva!

Nem mesmo o sono acolhe as pálpebras cansadas!
O leito é a umidez dos fétidos mocambos!
O pão é escasso e duro! As vestes são molambos
E o calçado é o paul das ruas descalçadas!

Ali, a Medicina é estranho um só prodígio!...
Nunca um livro se abriria em risos de esperança
Para encher de fulgor os olhos da criança,
Apontando-lhe o céu… mostrando-lhe um vestígio!...

Tudo é treva e descrença! O próprio Deus é triste
Ouvindo esse ofegar de corações humanos…
E a lei — mulher feliz que dorme à tantos anos —.
Não acorda pra ver quanta injustiça existe!

Onde está esse amor que os sacerdotes pregam?
Onde estão essas leis que o Parlamento imprime?
O Código não pode abrir o seio ao Crime,
Infamando o pudor que os Tribunais segregam!

Vêde bem da fornalha a rubra labareda!...
Olhai das chaminés o fumo que desliza!...
Pois é o sangue… É o suor do pobre que agoniza
Enquanto a Lei cochila entre os divãs de seda!

Que é feito desse herói? Ninguém lhe sabe a origem!
O Poder nunca entrou nas palhas do seu teto…
Somente a esposa enferma, o filho analfabeto,
E lá nos cabarés, — a filha… que era virgem!

É desgraça demais num país tão nobre
Que teve um Bonifácio e teve um Tiradentes
Exista essa legião de mártires descrentes
Em cada fim de rua, em cada bairro pobre!

Será preciso o sangue borbotar na lança
E o cadáver do povo apodrecer nas ruas?
Tu não vestes, ó Lei, as próprias filhas tuas?
Morre, pois, mãe cruel, debaixo da vingança!

Mas eu vejo que breve há de chegar a hora
Em que voz do infeliz é livre — na garganta!
Porque sei que esse Deus que nos palácios canta
É o mesmo grande Deus que pelos bairros chora!

Quanto riso aqui dentro! E lá por fora, os brados!
Quantos leitos de seda! E quantos pés descalços!
Já que os homens não vêem esses decretos falsos,
Rasga, Cristo, o teu manto! Abriga os desgraçados!...

Fortaleza, 1947.