Verônica
Rogaciano Leite
(A Fernando Sóter)

Cabelos pendentes, os braços doridos,
Os ombros feridos com o peso da Cruz,
A face encovada na flor do sudário,
Subindo o Calvário — penava Jesus!

Os ombros desnudos, ao sol fatigante!
Na rocha escaldante sangravam-Lhe os pés!
Vibrando o chicote, cobrindo-O de Injúrias,
Mordiam-se em fúrias — algozes cruéis!

A fronte serena, porém, conservava,
Se acaso tombava com a face no chão!
As cordas ferinas, do pranto nas bagas,
Mordiam-Lhe as chagas... mortal convulsão!

O drama sinistro não tinha intervalos…
Ouviam-se estalos, blasfêmias, horror!
Mordazes infâmias... tombava o Madeiro
E o débil Cordeiro sangrava de dor!

A turba exaltada, sinistra, impiedosa,
Maldita, furiosa — venais Fariseus —
Com gestos de tigres e olhares de lobos
Levava, de arroubos, o Filho de Deus!

Porém, de repente, por entre o tumulto
Projeta-se um vulto com um manto na mão:
Em frente de Cristo. Verónica, aflita,
Se prostra, bendita, com as tranças ao chão!...

Amável, piedosa, banhada de pranto
Estende-Lhe o manto na pálida face;
Enxuga-Lhe o rosto que a mágoa conturba
E aos gritos da turba se afasta, fugace!

Então, que milagre!... Que grata lembrança
Lhe deixa de herança Jesus Sacrossanto!
Verônica exulta... (Oh! cena tocante!)
De Cristo o Semblante ficara em seu manto!

Fortaleza, maio de 1946.