Os Mortos de Pistóia
Rogaciano Leite
(Aos expedicionários brasileiros)

E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram — foi no chão da História…
Se tropeçaram — foi na Eternidade…
Se naufragaram — foi no mar da Glória!
Castro Alves

Sob a mantilha de gelo
Que desce num pesadelo
Cobrindo a face do chão,
Pistoia sonhando abraça
Os “partizans” de outra raça,
Os Gracos de outra Nação!

Sim! No mapa italiano
Um padrão brasiliano
Ergueu-se forte, viril…
Porque os mortos de Pistóia
Não são de Atenas ou Tróia,
Mas desta Esparta — o Brasil!

Naquele heróico recanto
A Itália branca de espanto
Vela de um povo o dormir…
Cada ossada é uma montanha
Que a terra guarda na entranha
Para ofertar ao Porvir!

Sobre a raça que ali dorme
Atravessa o raio enorme
Do céu de longínqua plaga,
Fundindo o bronze da Glória
Em que Deus grava uma história
Que a Maldição não apaga!
Naquele Calvário novo
— Qual Cristo — revive um povo
Da Pátria que faz heróis…
Do moço — eterna esperança!
Do velho — a honra, a herança
Que os netos têm dos avós!

De Montese e Soprassasso
Brilha entre horizontes de aço
O sol de novas manhãs…
Qual bravo de Maratona
Monte Castelo ressona
Com a neve cobrindo as cãs!

Esse gigante que dorme
No seu leito de canhões
Esconde a cabeça enorme
No colo de cem nações!
Do seu rosto de granito
Um gesto corta o infinito
Qual temeroso punhal;
E a luz do imenso horizonte
Brinca roçando-lhe a fronte
Com os lábios do vendaval!

É que na cova dos bravos
Brilha uma espada de luz
Com que Deus lapida os cravos
Do braço extenso da cruz!
Por isso o gigante belo
Dorme... Que Monte Castelo
Esmaga mil coliseus!
As suas pétreas colunas
Foram maciças tribunas
Donde o herói falou com Deus!

Foi, sim, naquele regaço
Que o vil dragão do Nazismo
Rangeu os dentes no espaço
Pra rolar mordendo o abismo…
Contra as águias da Justiça
O corvo hostil da Cobiça
Não teve asas nem lauréis!
Tombou malogrado, inerme,
Qual pequeno e impuro verme
Que a onça esmaga nos pés!

Nos flancos daquele cerro,
Da morte ao tremendo jogo,
Sinistras bocas de ferro
Lançaram crimes de fogo!
A um povo civilizado
Deus não perdoa o pecado
De destruir cabedais…
Nos antros do vil regime
Plantaram desonra e crime,
— Nasceram cruzes... punhais!

Por isso, em vez de galeras
Em que o Poder se debruça,
O mundo exibe crateras
Onde o Progresso soluça!
Criminosos subterrâneos
Onde o olhar tropeça em crânios
E a vida esbarra na cruz!
Ossadas — como pirâmides,
Trapos de farda — por clâmides,
Por sudário — um céu sem luz!

Ó déspota, vil, perverso
Que diz que o Crime é Bravura
E que das tábuas de um berço
Fabrica uma sepultura!
Que em vez do livro e a caneta
Mostra o sabre e a baioneta,
Em vez do arado — o canhão!
Seus partos são os escombros
Que o mundo arrasta nos ombros
Com o peso da Maldição!

Meu Deus! A neve d’Europa
É um cilício de amargura
Que o sangue de um povo ensopa
Nas manchas da Escravatura!
Essa esteira de desgraça
Que a fronte do herói amassa
— Triste laurel do Poder —
Há de arder vinte mil anos
Na cinza desses tiranos
Que escravos tentaram ter!

Sim! Que do pó dos humildes
Que o soberano enlameia
Nascem Roosevelts e Rotschildes
Que a mão do Acaso semeia!
O Tempo é o Sansão do Império
Que as muralhas do Hemisfério
Parte, em voraz convulsão,
Pra levantar um obelisco
Em cima de cada risco
Que um bravo deixa no chão!

Ó vós que vedes Pistóia
No seu fatal pesadelo,
Como eterna clarabóia
Num mar coberto de gelo;
Não zombeis das catacumbas
Que se levantam nas tumbas
De gente tão valorosa!
Essas benditas caveiras
São grandezas brasileiras
Que a Itália guarda, orgulhosa!

Pistóia é uma rede armada
Dos Alpes aos Apeninos
Onde uma raça embalada
Sonha da Pátria os destinos!
A coberta — é o véu da Glória.
O tapete — é o “chão da História”,
Cada corda é um alcantil;
As franjas são sóis nascentes
E os punhos — dois Continentes
Onde se embala o Brasil!

Ali, nas noites brumosas,
Num drama de liberdade,
Saltam caveiras lustrosas
Maiores que a Imensidade!
Ante o fulgor de seu manto
A lua, tonta de espanto,
Desmaia... treme... sorri…
Do céu, por entre alabastros,
As nuvens dizem aos astros:
— São bravos que estão ali!...

No idioma dos guerreiros
Grita a turba audaz e forte:
“ — Os soldados brasileiros
Vivem mais depois da morte!
Lá, Guanabara desmaia
Se o gigantesco Itatiaia
Mostra a fronte aos Pirineus!
E aos trovões da pororoca
O Amazonas desemboca
Lavando o manto de Deus!”

— Não mancham nossas Bandeira
Cores de nação estranha,
Porque na água da Cachoeira
De Paulo Afonso se banha!
Do Chuí ao São Francisco
Invoca o raio e o corisco
Se o invasor pretende entrar…
Mas quando o Crime não medra
Corre brincando — na pedra,
Dorme sorrindo — no mar!

— A Pátria em que o filho honrado
Quebra o jugo, a tirania,
Não amamenta soldado
No peito da covardia!
Os homens da nossa terra
Têm por berço a altiva serra,
Por leito — os pampas do Sul;
Vinte Estados — por abrigo,
Por quépe — um sol cor de trigo,
Por teto — um céu muito azul!

— Quem nasce na imensidade
Do nosso heróico país
Sabe honrar a liberdade
Que fica na cicatriz!
Partam-se metralhas de aço.
Ruiam canhões pelo espaço…
Ardam bombas sobre o chão…
Limpem-se as lanças no corte…
Caia o bravo... exulte a Morte...
Mas viva livre a Nação!”

A voz dos mortos na Guerra
Fala pela voz do NADA.
A neve arrepia a terra,
A noite treme... assustada!
Depois, um silêncio enorme
Cai sobre o morto que dorme
Num cemitério de sóis…
E no alto da sepultura
Uma cruz, com faixa escura,
Mostra o nome dos heróis!

A treva recolhe as plumas,
— Que a luz já vem no horizonte —
Com um trapo de sol nas brumas
A montanha enxuga a fronte!
O velado Cemitério
Guarda os mortos do Hemisfério
Que tem Tupã como Deus;
E o Cristo do Corcovado
Diz ao Brasil deslumbrado:
“— Aqueles bravos são teus—”

Fortaleza. 1946.