Na Praia
Rogaciano Leite
Aos alvos
ouvidos
de esponja
da praia
teu pé cochichava segredo infantil…
E ao brilho
da lua
miravam-te
as ondas
lavando em teus olhos seu rosto de anil!

Ligeiros
borrifos
do mar
que espumava,
tangidos ao vento num débil vapor,
caíam
contritos
beijando-te
a cinta,
do branco vestido luzindo ao tremor!

Um lenço
de espuma
se abria
na praia
Mas logo, tremente, fugia, veloz…
Por entre
a janela
das nuvens
a lua
no céu, cuidadosa, velava por nós!

Havia
coqueiros
que o tempo
aleitara
nos seios de seda da areia ao luar…
— eternos
boêmios
que, fartos
de beijos,
vergavam as palmas cansados de amar!

Esbeltas
palmeiras
trementes
de amores
mostravam às nuvens seus tálamos nus…
E uns tons
mascarados
nos olhos
da noite
fugiam, nervosos, com medo da luz.

Se tudo
recordo
com plena
certeza
que o mar inda chora com pena de nós,
um beijo
da lua
me acende
as pupilas
e o choro das águas me corre na voz!

Que vago
romance!
que fria
saudade!
Lembrar esse tempo que o tempo levou…
ouvir
o passado
falando
baixinho,
contando
os
segredos
que
o
mar
não
contou!

Fortaleza, 1945.