Sonho
Marquesa Alorna

Perdoa, Amor, se não quero

Aceitar novo grilhão;

Quando quebraste o primeiro,

Quebraste-me o coração.


Olha, Amor, tem dó de mim!

Repara nos teus estragos,

E desvia por piedade

Teus sedutores afagos!


Tu de dia não me assustas;

Os meus sentidos atentos

Opõem aos teus artifícios

Mil pesares, mil tormentos.


Mas, cruel, porque me assaltas,

De mil sonhos rodeado?

Porque acometes no sono

Meu coração descuidado?...


Eu, quando acaso adormeço,

Adormeço de cansada,

E o crepúsculo do dia

Me acorda sobressaltada.


Arguo então a minha alma,

Repreendo a natureza

De ter cedido ao descanso

Tempo que devo à tristeza.


Que te importa um ser tão triste?...

Cobre de jasmins e rosas

Outras amantes felizes!

Deixa gemer as saudosas!