Quanto Faças, Supremamente Faze
Ricardo Reis
Quanto faças, supremamente faze. Mais vale, se a memória é quanto temos, Lembrar muito que pouco. E se o muito no pouco te é possível, Mais ampla liberdade de lembrança…
Os Grandes Indiferentes
Ricardo Reis
Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo…
Abdica e Sê Rei de Ti Mesmo
Ricardo Reis
Frutos, dão-os as árvores que vivem, Não a iludida mente, que só se orna Das flores lívidas Do íntimo abismo. Quantos reinos nos seres e nas cousas Te não talhaste…
Nada Nos Falta, porque Nada Somos
Ricardo Reis
Ao longe os montes têm neve ao sol, Mas é suave já o frio calmo Que alisa e agudece Os dardos do sol alto. Hoje, Neera, não nos escondamos, Nada…
Cada Coisa a seu Tempo Tem seu Tempo
Ricardo Reis
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. Não florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primavera Têm branco frio os campos. À noite, que entra, não pertence, Lídia, O…
Quanta Tristeza e Amargura
Ricardo Reis
Quanta tristeza e amargura afoga Em confusão a 'streita vida! Quanto Infortúnio mesquinho Nos oprime supremo! Feliz ou o bruto que nos verdes campos Pasce, para si mesmo anônimo, e…
Uma Após Uma as Ondas Apressadas
Ricardo Reis
Uma Após Uma Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam…
Domina ou Cala
Ricardo Reis
Domina ou cala. Não te percas, dando Aquilo que não tens. Que vale o César que serias? Goza Bastar-te o pouco que és. Melhor te acolhe a vil choupana dada…
Cura de Ser quem És
Ricardo Reis
Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura…
Aos que a Felicidade é Sol, Virá a Noite
Ricardo Reis
Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles. Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que…