Só os Lábios Respiram
Orlando Neves
Só os lábios respiram. Simples gesto vivo, exílio do som onde se oculta o pavor da palavra, pátria salgada cerrada no vazio da casa de velhos deuses ávidos de preces.…
O Coração
Orlando Neves
Que jogo jogas, comédia ou lágrima? Cor suspensa. Prodígio doendo. Enganador relâmpago. Donde se enreda esta coragem que chora ao riso e ri à dor? Quatro são as pedras mestras…
O Corpo
Orlando Neves
Ante as portas desgarradas, paradoxal é a morte: impossível, feito realidade, acaso predito. Corpo, deus imortal, para sempre cego e mudo, abandona-te ao livre ar. Que te transformes e assemelhes…
Erra, Fio mortal da Alma, o Destino
Orlando Neves
Erra, fio mortal da alma, o destino. Porém, trémulo, o não temo. Seco será o poder do nada, o silêncio dos deuses ou o rosto corrompido dos homens. Estas folhas…
Como Realiza o Corpo este Exercício da Queda
Orlando Neves
Como realiza o corpo este exercício da queda no súbito conhecimento do espanto, quando os olhos estão vencidos, cerrados pela transparência e pela luz ofuscante da alva? À medida que…
A Idade
Orlando Neves
Ao princípio, era a doença de ser, pura e simples exaltação das trevas de que a casa era a luz do mundo. Ao princípio, estava o amor oculto no secreto…
Só no Pensamento Volta o Mundo
Orlando Neves
Só no pensamento volta o mundo. Ao ruído da voz apenas aspiro que a alma é o ser mais que a dor ou o verde cinza do halo das…
O Sono
Orlando Neves
É um braço magro de mulher, uns olhos espectrais e brilhantes, uma cabeça de esfinge, uma lâmpada que fumega. Talvez por os não vermos, vejamos rios que flamejam, jardins sepultos,…
Criei, não Possuí
Orlando Neves
Criei, não possuí. Instante de infinitude, o que moldei na voz respira. A firme casa do meu corpo se fez pelo contraste, que só o contrário cria. Não possuí, denso…
A Área
Orlando Neves
Tudo o que houve, permanece, proeza do corpo como um sulco bárbaro da memória dos dias, ritos, remorsos, sementes futuras, a mudez. Tudo aconteceu nas lágrimas e nas veias, na…