Insónia
Álvaro de Campos
Não durmo, nem espero dormir. Nem na morte espero dormir. Espera-me uma insónia da largura dos astros, E um bocejo inútil do comprimento do mundo. Não durmo; não posso ler…
Eu que me Aguente Comigo
Álvaro de Campos
Contudo, contudo, Também houve gládios e flâmulas de cores Na Primavera do que sonhei de mim. Também a esperança Orvalhou os campos da minha visão involuntária, Também tive quem também…
Que Noite Serena!
Álvaro de Campos
Que noite serena! Que lindo luar! Que linda barquinha Bailando no mar! Suave, todo o passado o que foi aqui de Lisboa me surge... O terceiro andar das…
Dobrada à Moda do Porto
Álvaro de Campos
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e…
Ao Volante
Álvaro de Campos
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um…
Ode Marítima
Álvaro de Campos
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido, Olho e contenta-me ver, Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Vem muito…
Sou Lúcido
Álvaro de Campos
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara, Que simpatiza comigo e eu simpatizo com…
Vale a Pena Sentir para ao Menos Deixar de Sentir
Álvaro de Campos
Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima, Começam chegando os primitivos da espera, Já ao longe o paquete de África se avoluma e esclarece. Vim aqui para não…
Depus a Máscara
Álvaro de Campos
Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre…
Acaso
Álvaro de Campos
No acaso da rua o acaso da rapariga loira. Mas não, não é aquela. A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro. Perco-me subitamente da visão imediata,…