Por tanto tempo
Olavo Bilac

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,

Fitei naquela noite o firmamento,

Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito,

Tudo aquilo me vem ao pensamento.


Sal, no peito o derradeiro grito

Calcando a custo, sem chorar, violento...

E o céu fulgia plácido e infinito,

E havia um choro no rumor do vento...


Piedoso céu, que a minha dor sentiste!

A áurea esfera da lua o ocaso entrava.

Rompendo as leves nuvens transparentes;


E sobre mim, silenciosa e triste,

A via-láctea se desenrolava

Como um jorro de lágrimas ardentes.