Morte, Juízo, Inferno e Paraíso
Manuel Bocage

Em que estado, meu bem, por ti me vejo,

Em que estado infeliz, penoso e duro!

Delido o coração de um fogo impuro,

Meus pesados grilhões adoro e beijo.


Quando te logro mais, mais te desejo;

Quando te encontro mais, mais te procuro;

Quando mo juras mais, menos seguro

Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.


Assim passo, assim vivo, assim meus fados

Me desarreigam d'alma a paz e o riso,

Sendo só meu sustento os meus cuidados;


E, de todo apagada a luz do siso,

Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados

Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.