Desde a Aurora
Eugénio Andrade
Como um sol de polpa escura para levar à boca, eis as mãos: procuram-te desde o chão, entre os veios do sono e da memória procuram-te: à vertigem do ar…
Outono
Eugénio Andrade
O outono vem vindo, chegam melancolias, cavam fundo no corpo, instalam-se nas fendas; às vezes por aí ficam com a chuva apodrecendo; ou então deixam marcas; as putas, difíceis de…
Nocturno a Duas Vozes
Eugénio Andrade
Que posso eu fazer senão beber-te os olhos enquanto a noite não cessa de crescer? Repara como sou jovem, como nada em mim encontrou o seu cume, como…
Coração Habitado
Eugénio Andrade
Aqui estão as mãos. São os mais belos sinais da terra. Os anjos nascem aqui: frescos, matinais, quase de orvalho, de coração alegre e povoado. Ponho nelas a minha boca,…
Litania
Eugénio Andrade
O teu rosto inclinado pelo vento; a feroz brancura dos teus dentes; as mãos, de certo modo, irresponsáveis, e contudo sombrias, e contudo transparentes; o triunfo cruel das tuas pernas,…
Labirinto ou Alguns Lugares de Amor
Eugénio Andrade
O outono por assim dizer pois era verão forrado de agulhas a cal rumorosa do sol dos cardos sem outras mãos que lentas barcas vai-se aproximando a água a nudez…
Obscuro Domínio
Eugénio Andrade
Amar-te assim desvelado entre barro fresco e ardor. Sorver o rumor das luzes entre os teus lábios fendidos. Deslizar pela vertente da garganta, ser música onde o silêncio aflui e…
Sobre o Caminho
Eugénio Andrade
Nada nem o branco fogo do trigo nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros te dirão a palavra Não interrogues não perguntes entre a razão e a turbulência da…
Sobre a Palavra
Eugénio Andrade
Entre a folha branca e o gume do olhar a boca envelhece Sobre a palavra a noite aproxima-se da chama Assim se morre dizias tu Assim se morre dizia o…
Juventude
Eugénio Andrade
Sim, eu conheço, eu amo ainda esse rumor abrindo, luz molhada, rosa branca. Não, não é solidão, nem frio, nem boca aprisionada. Não é pedra nem espessura. É juventude. Juventude…