Carta a Ângela
Carlos Oliveira
Para ti, meu amor, é cada sonho de todas as palavras que escrever, cada imagem de luz e de futuro, cada dia dos dias que viver. Os abismos das coisas,…
Sono
Carlos Oliveira
Dormir mas o sonho repassa duma insistente dor a lembrança da vida água outra vez bebida na pobreza da noite: e assim perdido o sono o olvido bates, coração, repetes…
Elegia em Chamas
Carlos Oliveira
Arde no lar o fogo antigo do amor irreparável e de súbito surge-me o teu rosto entre chamas e pranto, vulnerável: Como se os sonhos outra vez morressem no lume…
Soneto da Chuva
Carlos Oliveira
Quantas vezes chorou no teu regaço a minha infância, terra que eu pisei: aqueles versos de água onde os direi, cansado como vou do teu cansaço? Virá abril de novo,…
Acusam-me de Mágoa e Desalento
Carlos Oliveira
Acusam-me de mágoa e desalento, como se toda a pena dos meus versos não fosse carne vossa, homens dispersos, e a minha dor a tua, pensamento. Hei-de cantar-vos a beleza…
Tempo
Carlos Oliveira
O tempo é um velho corvo de olhos turvos, cinzentos. Bebe a luz destes dias só dum sorvo como as corujas o azeite dos lampadários bentos. E nós sorrimos, pássaros…
Leitura
Carlos Oliveira
Quando por fim as árvores se tornam luminosas; e ardem por dentro pressentindo; folha a folha; as chamas ávidas de frio: nimbos e cúmulos coroam a tarde, o horizonte, com…
Infância
Carlos Oliveira
Sonhos enormes como cedros que é preciso trazer de longe aos ombros para achar no inverno da memória este rumor de lume: o teu perfume, lenha da melancolia.
Cantiga do Ódio
Carlos Oliveira
O amor de guardar ódios agrada ao meu coração, se o ódio guardar o amor de servir a servidão. Há-de sentir o meu ódio quem o meu ódio mereça: ó…
Montanha
Carlos Oliveira
Sons sob a luz. Mosteiros, torres sobrenaturais, vibrando fluidamente no ar; como? se o fluxo de mica, os altos blocos de água, cintilam sem rumor. Toda esta arquitectura, lenta percussão,…