O Somno de João
António Nobre
O João dorme... (Ó Maria, Dize áquella cotovia Que falle mais devagar: Não vá o João, acordar...) Tem só um palmo de altura E nem meio de largura: Para o…
Vaidade, Tudo Vaidade!
António Nobre
Vaidade, meu amor, tudo vaidade! Ouve: quando eu, um dia, for alguem, Tuas amigas ter-te-ão amizade, (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm. Vaidade é o luxo, a…
À Luz da Lua!
António Nobre
Iamos sós pela floresta amiga, Onde em perfumes o luar se evola, Olhando os céus, modesta rapariga! Como as crianças ao sair da escola. Em teus olhos dormentes de fadiga,…
A Vida
António Nobre
Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!…
Poveiro
António Nobre
Poveirinhos! meus velhos pescadores! Na Agoa quizera com vocês morar: Trazer o lindo gorro de trez cores, Mestre da lancha Deixem-nos passar ! Far-me-ia outro, que os vossos interiores De…
Paz!
António Nobre
E a Vida foi, e é assim, e não melhora. Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão... Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora Com uma taça, ou um punhal…
A Poezia do Outomno
António Nobre
Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena! Tardes de sonho em que a poezia escorre E os bardos, a sonhar, molham a…
Para As Raparigas de Coimbra
António Nobre
1 Ó choupo magro e velhinho, Corcundinha, todo aos nós: És tal qual meu avôzinho, Falta-te apenas a voz. 2 Minha capa vos acoite Que é p'ra vos agazalhar: Se…
Natal d'um Poeta
António Nobre
Em certo reino, á esquina do planeta, Onde nasceram meus Avós, meus Paes, Ha quatro lustres, viu a luz um poeta Que melhor fôra não a ver jamais. Mal despontava…
Ó Virgens!
António Nobre
Ó virgens que passaes, ao sol-poente, Pelas estradas ermas, a cantar! Eu quero ouvir uma canção ardente Que me transporte ao meu perdido lar... Cantae-me, n'essa voz omnipotente, O sol…