Stella
Machado de Assis

Já raro e mais escasso

A noite arrasta o manto,

E verte o último pranto

Por todo o vasto espaço.


Tíbio clarão já cora

A tela do horizonte,

E já de sobre o monte

Vem debruçar-se a aurora.


À muda e torva irmã,

Dormida de cansaço,

Lá vem tomar o espaço

A virgem da manhã.


Uma por uma, vão

As pálidas estrelas,

E vão, e vão com elas

Teus sonhos, coração.


Mas tu, que o devaneio

Inspiras do poeta,

Não vês que a vaga inquieta

Abre-te o úmido seio?


Vai. Radioso e ardente,

Em breve o astro do dia,

Rompendo a névoa fria,

Virá do roxo oriente.


Dos íntimos sonhares

Que a noite protegera,

De tanto que eu vertera

Em lágrimas a pares,


Do amor silencioso,

Místico, doce, puro,

Dos sonhos de futuro,

Da paz, do etéreo gozo,


De tudo nos desperta

Luz de importuno dia;

Do amor que tanto a enchia

Minha alma está deserta.


A virgem da manhã

Já todo o céu domina...

Espero-te, divina,

Espero-te, amanhã.