Os Homens Gloriosos
Cecília Meireles

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,

e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.

Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:

deixai-me esquecer o tempo,

inclinar nas mãos a testa desencantada,

e de mim mesma desaparecer,

— que o clamor dos homens gloriosos

cortou-me o coração de lado a lado.


Pois era um clamor de espadas bravias,

de espadas enlouquecidas e sem relâmpagos,

ah, sem relâmpagos...

pegajosas de lodo e sangue denso.


Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!

Nuvens brandas, construindo mundos,

como se apagaram de repente!


Ah, o clamor dos homens gloriosos

atravessando ebriamente os mapas!


Antes o murmúrio da dor, esse murmúrio triste e simples

de lágrima interminável, com sua centelha ardente e eterna.


Senhor da Vida, leva-me para longe!

Quero retroceder aos aléns de mim mesma!

Converter-me em animal tranquilo,

em planta incomunicável,

em pedra sem respiração.


Quebra-me no giro dos ventos e das águas!

Reduze-me ao pó que fui!

Reduze a pó minha memória!


Reduze a pó

a memória dos homens, escutada e vivida...