Com a Fortuna não Perde o Ser de Besta
Francisco Bingre

Na carreira veloz, a deusa cega

Lança às vezes a mão a um feio mono

E o sobe, num instante, a um coche, a um trono,

Onde a Virtude com trabalho chega.


Porém se, louca, num jumento pega,

Por mais que o erga não lhe dá abono:

Bem se vê que foi sonho de seu sono,

Quando a vara ou bastão ela lhe entrega.


Pouco importa adornar asno casmurro

Com jaezes reais, mantas de festa,

Se a conhecer se dá no rouco zurro.


Quem, no berço, por vil se manifesta,

Quem nele baixo foi, quem nace burro,

Co'a Fortuna não perde o ser de besta.