Não há Vagas
Ferreira Gullar
O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite…
Extravio
Ferreira Gullar
Onde começo, onde acabo, se o que está fora está dentro como num círculo cuja periferia é o centro? Estou disperso nas coisas, nas pessoas, nas gavetas: de repente encontro…
Madrugada
Ferreira Gullar
Do fundo de meu quarto, do fundo de meu corpo clandestino ouço (não vejo) ouço crescer no osso e no músculo da noite a noite a noite ocidental obscenamente acesa…
Prometi-me Possuí-la
Ferreira Gullar
Prometi-me possuí-la muito embora ela me redimisse ou me cegasse. Busquei-a na catástrofe da aurora, e na fonte e no muro onde sua face, entre a alucinação e a paz…
No Corpo
Ferreira Gullar
De que vale tentar reconstruir com palavras O que o verão levou Entre nuvens e risos Junto com o jornal velho pelos ares O sonho na boca, o incêndio na…
Neste Leito de Ausência
Ferreira Gullar
Neste leito de ausência em que me esqueço desperta o longo rio solitário: se ele cresce de mim, se dele cresço, mal sabe o coração desnecessário. O rio corre e…