Ternura
David Mourão-Ferreira
Desvio dos teus ombros o lençol, que é feito de ternura amarrotada, da frescura que vem depois do sol, quando depois do sol não vem mais nada... Olho a roupa…
Noite Apressada
David Mourão-Ferreira
Era uma noite apressada depois de um dia tão lento. Era uma rosa encarnada aberta nesse momento. Era uma boca fechada sob a mordaça de um lenço. Era afinal quase…
E por Vezes
David Mourão-Ferreira
E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de…
Presídio
David Mourão-Ferreira
Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo Que dizer do pescoço, às vezes mármore, às vezes linho, lago, tronco de árvore, nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?…
Ladainha dos Póstumos Natais
David Mourão-Ferreira
Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me…
Labirinto ou não Foi Nada
David Mourão-Ferreira
Talvez houvesse uma flor aberta na tua mão. Podia ter sido amor, e foi apenas traição. É tão negro o labirinto que vai dar à tua rua ... Ai de…
O Corpo Os Corpos
David Mourão-Ferreira
O teu corpo O meu corpo E em vez dos corpos que somados seriam nossos corpos implantam-se no espaço novos corpos ora mais ora menos que dois corpos Que escorpião…
Paisagem
David Mourão-Ferreira
Desejei-te pinheiro à beira-mar para fixar o teu perfil exacto. Desejei-te encerrada num retrato para poder-te contemplar. Desejei que tu fosses sombra e folhas no limite sereno dessa praia. E…
Silêncio
David Mourão-Ferreira
Já o silêncio não é de oiro: é de cristal; redoma de cristal este silêncio imposto. Que lívido museu! Velado, sepulcral. Ai de quem se atrever a mostrar bem o…
Natal, e não Dezembro
David Mourão-Ferreira
Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em…