Pedra Filosofal
António Gedeão
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como…
Calçada de Carriche
António Gedeão
Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada. Sobe, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe sobe a calçada. Saiu de casa de madrugada; regressa a casa…
Dia de Natal
António Gedeão
Hoje é dia de ser bom. É dia de passar a mão pelo rosto das crianças, de falar e de ouvir com mavioso tom, de abraçar toda a gente e…
Soneto
António Gedeão
Não pode Amor por mais que as falas mude exprimir quanto pesa ou quanto mede. Se acaso a comoção falar concede é tão mesquinho o tom que o desilude. Busca…
Poema do Futuro
António Gedeão
Conscientemente escrevo e, consciente, medito o meu destino. No declive do tempo os anos correm, deslizam como a água, até que um dia um possível leitor pega num livro e…
Fala do Homem Nascido
António Gedeão
(Chega à boca da cena, e diz:) Venho da terra assombrada, do ventre de minha mãe; não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém. Só quero o que me…
Mãezinha
António Gedeão
A terra de meu pai era pequena e os transportes difíceis. Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis. Corria branda a noite e a vida era serena. Segundo…
Poema da Eterna Presença
António Gedeão
Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, que as dimensões do infinito não me perturbam. (O infinito! Essa incomensurável…
Poema para Galileo
António Gedeão
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de…
Poema da Auto-estrada
António Gedeão
Voando vai para a praia Leonor na estrada preta. Vai na brasa, de lambreta. Leva calções de pirata, Vermelho de alizarina, modelando a coxa fina de impaciente nervura. Como guache…